#2 Caderno de Artista: Nicholas Steinmetz
- natalyolivier

- 4 de abr. de 2025
- 10 min de leitura

Nicholas Steinmetz (1996, São Paulo – SP) é um artista visual radicado em Curitiba – PR, formado em Design Gráfico pela PUCPR. Entre 2019 e 2022, atuou como mediador no Museu do Holocausto de Curitiba, aprofundando sua pesquisa sobre as conexões entre história, memória e arte. Em 2020, integrou o grupo BASA2, sob orientação do curador Lucas Velloso, explorando diálogos entre quadrinhos e arte contemporânea.
Desde 2022, participou de diversas exposições coletivas e realizou quatro individuais, incluindo Pé de Galinha (2024), no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR). É também cofundador do Espaço Totó (@totoespaco), em São Paulo — um ateliê coletivo e espaço cultural voltado à experimentação em montagens expográficas.
Seu trabalho transita entre a narrativa, a espacialidade e o anacronismo da construção da imagem. Desenho, figuração e composição se entrelaçam em cenas sobrepostas que resistem a leituras lineares, funcionando como frestas. Alimentado por uma constelação de narrativas captadas do mundo das imagens, seus trabalhos exploram fragmentos de histórias e rituais, abordando temas como corpo, natureza, sonhos, gênero e estruturas sociais.
O desenho como núcleo criativo

Em nosso encontro on-line, de primeiro momento, conversamos sobre a relação de Nicholas Steinmetz com o Caderno de Artista. Desde o ensino fundamental, ele sempre teve um caderno por perto, onde rabiscava compulsivamente: “Eu não conseguia prestar atenção na aula se eu não tivesse fazendo algo com a mão, então eu sempre tinha que tá rabiscando alguma coisa pra conseguir prestar atenção. Quando eu era adolescente, eu adorava mangá, anime, então também era um estímulo, e desde então eu nunca parei”.
Esse relato indica como o desenho, mais do que um simples passatempo, se tornou um fio condutor entre sua atenção e a criação, fazendo do desenho algo vital para seu processo criativo: “A grande parte do meu processo vem do desenho. Então eu considero que quando eu vou pintar, o desenho sempre é meio que um esqueleto, para composição, pensar silhueta, forma e figuração e até abstração. E aí a pintura vira o problema por si só, com a linguagem da pintura”. O Caderno de Artista, além de suporte criativo, é uma interface entre mente e papel.
Dessa forma, o Caderno de Artista e o desenho são primordiais na sua trajetória e prática artística: “Eu acho que eu nunca vou me desprender tanto do desenho, porque eu começo a pintura refazendo o desenho, basicamente. A questão da pintura é isso. Às vezes, eu dou uma incrementada maior, mas essa base sempre vai ser o desenho. E, às vezes, tem umas que tem até desenho demais”.
“Desenho pra mim sempre foi meio natural, e o meu processo pra eu me entender enquanto artista demorou um pouco, e mesmo assim eu sempre mantive o hábito de ter um caderno.”
Nicholas Steinmetz
Em suas páginas, percebemos que o traço de lápis predomina. Há uma leveza na linha, uma impressão de fluxo contínuo, como se desenhar fosse um registro imediato do pensamento, sem grandes interferências. Questiono se ele já explorou outras técnicas no caderno, ao que ele ressalta: “Tinha uma época que eu fazia bastante com tinta, cor, principalmente muita colagem. Eu tinha um hábito de recortar papel, colar, enfim, mas o caderno começou a ter esse propósito de ser um catálogo de imagens minhas, então eu fui perdendo a vontade de fazer colagem, de pintar no caderno, porque se eu for pintar, eu pinto telas, né?”.
Essa mudança de abordagem evidencia uma transformação no papel do caderno em sua prática artística. De um espaço experimental, ele passou a ser arquivo profissional, um inventário imagético que alimenta sua produção.
Ao analisarmos um de seus desenhos (a imagem acima), pergunto sobre a possível relação com a guerra: “Quando eu comecei a minha pesquisa de ateliê, minha pesquisa de obra mesmo, enquanto artista, eu tinha uma pesquisa muito focada nisso. Mas hoje em dia, não foco tanto nisso, porque eu percebi que, na verdade, eu tava só fazendo isso pra justificar o porquê que eu queria pintar, o porquê que eu queria produzir”.
Essa fala carrega uma virada de percepção interessante: a constatação de que, muitas vezes, a justificativa conceitual para a produção pode vir depois, e não antes, da própria necessidade de criar; e em como o Caderno de Artista está em todas as suas fases de descobrimento e mudanças.
“Hoje em dia, o que normalmente eu desenho é o que meu olho se atrai em imagem de referência no mundo, questão de movimento, contraste, luz. Então, não necessariamente tem um significado por trás maior, além da necessidade de produzir.”
Nicholas Steinmetz
Caderno de Artista: essencial para o seu fazer artístico
Nicholas esclarece a importância do Caderno de Artista para si: “O caderno funciona como um catálogo, com o que normalmente me interessa no desenho, das formas que eu vejo no mundo, e fica catalogado ali, então eu sempre revisito e normalmente eu tenho que ter desenhos pra poder pintar, fazer obras, no caso, então é essencial.”
Como funciona seu hábito com o Caderno de Artista?
Ao compartilhar sua visão sobre o processo criativo na sua rotina, o artista percebe que sua relação com o caderno oscila de acordo com as exigências do dia a dia: “Eu acho que o hábito de ter caderno também tem muito a ver com quando eu tenho aula, quando eu tenho que ouvir coisas, eu não consigo não desenhar quando eu tô assim. É meio essencial, então, por exemplo, quando eu tô muito lotado de trabalho, normalmente, meu caderno fica meio vazio. E aí, eu pego, sei lá, um curso, um grupo de estudos, aí ele fica um pouco mais cheio. Pro meu processo, às vezes, eu tenho que me forçar a desenhar, dar um tempo pra ouvir um podcast, alguma coisa, pra desenhar, pra daí começar a pensar em telas”.
Você segue uma ordem ou se preocupa com a aparência das páginas?
Ao ouvir a pergunta, ele explica que nem sempre foi como é hoje (mais livre): “Eu acho que quando eu era mais novo, eu tinha uma pressão muito grande de fazer tudo em ordem. Essa página primeiro, essa página segunda... Depois que eu me soltei em relação a isso, ficou mais fácil”.
No início da faculdade, essa preocupação com a estética era ainda mais forte, especialmente porque seu objetivo era construir um portfólio para o mercado de ilustração: “No início eu tinha muita preocupação em deixar bem bonitinho. Porque eu não tinha um corpo de trabalho tão grande em relação à pintura e outras coisas. Principalmente nos meus primeiros anos de faculdade, que meu intuito era ser ilustrador e entrar mais no mercado comercial. Grande parte do meu portfólio era esses cadernos. Então eu fazia muita questão. Por isso que também tinha colagem e coisas mais 'atrativas'. Mas agora ele realmente é como uma ferramenta de trabalho. Então eu não me importo tanto. Mas, por exemplo, pra compartilhar com as pessoas, eu gosto bastante de escanear só depois que eu sentir que todas as páginas estão completas e fazem sentido”.
Seu Caderno de Artista deixa de ser um suporte auxiliar e se torna um arquivo vivo do olhar do artista, que não liga muito para a aparência das páginas, já que o vê como ferramenta de trabalho. Cada página contém formas, silhuetas e composições que, mais tarde, podem ou não se transformar em pintura.

Ao falar sobre essas outras duas páginas (imagem acima), ele menciona que foi feito enquanto assistia ao filme Salò ou os 120 Dias de Sodoma: “Eu tava assistindo o filme e aí eu fiquei desenhando algumas silhuetas que iam aparecendo. Anotei alguma fala de algum personagem, às vezes tem palavras que eu anoto e depois eu perco totalmente o contexto, que aí vou ver depois ou não”. Seu Caderno de Artista, assim como visto como algo mais despretensioso, parece não conter ideias fechadas ou completas, dando margem a reinvenções.
Como o Caderno de Artista te ajuda com o bloqueio criativo?
Neste questionamento, o Caderno de Artista se apresenta para ele como um banco de referências pessoais que permite que ideias antigas sejam revisitadas com novos olhos: “Acho que o intuito dele existir, inclusive, é isso. Ter um catálogo é retomar certas ideias que eu pensei um tempo atrás e depois não vingou e que agora eu posso ter ferramentas para usar”.
Ele descreve como isso se manifesta na prática: “Então, provavelmente se estou começando a fazer uma tela e eu sinto que faltou alguma coisa, eu olho no meu caderno e junto com outra coisa”.
O mundo da pintura: preencher os vazios

Muitos dos seus desenhos têm a linha mais simples. Com um espaço em branco, que é poderoso, como se evocasse alguma coisa, um silêncio, convida o espectador a preencher lacunas. Há algo de poético nisso: a sugestão ao invés da definição, o gesto contido ao invés da exuberância.
Como você decide o nível de acabamento dos desenhos no Caderno de Artista?
Nicholas relaciona essa questão diretamente ao seu processo de pintura: “Eu acho que tem muito a ver com o meu processo de pintura. Porque, como eu disse, eu utilizo o meu caderno como um catálogo de formas, silhuetas, que me interessam, então há esses vazios para eu resolver isso numa obra dentro do mundo da pintura, que envolve sobreposição, cor, enfim”.
Ele destaca que a materialidade da tinta permite um tipo de gestualidade diferente: “Num caderno, num desenho, é óbvio que a gente também pode brincar com isso. Mas me interessa muito mais num contexto de tinta, em que a materialidade é maior e que eu acho que a gestualidade dentro desse processo vai além. Eu acho que a gestualidade do desenho, às vezes, é muito precisa e é legal. Então, por exemplo, aquele primeiro desenho (primeira imagem), ele tem um pouco mais de luz e sombra, mais alguns detalhes. Mas nem sempre eu tô muito a fim de fazer isso, porque é um pouco mais minucioso. Agora, na pintura, principalmente em obras que são maiores, a gestualidade não é tão minuciosa. Então, acho que me permite”.
É notável que o seu Caderno de Artista se torna um espaço de planejamento e pensamento visual, enquanto a pintura é o lugar onde essas ideias ganham corpo e se transformam.
Ele complementa: “O desenho vira isso, vira esse estudo de composição, de silhueta, de realmente quais formas me interessaram resolver na pintura. E eu acho que, às vezes, menos é mais também, sabe? Você consegue trazer uma figura, uma forma com poucas linhas que, às vezes, se você incrementa demais, eu sinto que não funciona da mesma maneira”.
“Eu acho que grande parte da graça da pintura é o acaso, é o erro, é o ter que cobrir quando você vê que, talvez, uma cor ou uma forma não funcionou. A pintura, pra mim, é um grande quebra-cabeça, que é muito legal de solucionar. É interessante.”
Nicholas Steinmetz
O hibridismo, a distorção e o erro

Ao olharmos essas duas páginas (imagem acima) Nicholas demonstra um fascínio pela fusão de elementos, especialmente quando envolve figuras humanas e de animais. Seu interesse está na criação de algo novo a partir da junção de formas. Ao dizer: “Eu gosto de mesclar coisas, não só animais com gente. Mas gente, eu acho que é o que mais me interessa, porque é o que eu mais gosto de desenhar”.
Em sua arte, na qual diferentes fragmentos coexistem, criando novas figuras que escapam de definições rígidas, revela um pensamento artístico que abraça o inesperado: “Eu me interesso em realmente deixar a distorção acontecer, deixar a mescla também acontecer. Se tem duas imagens que me interessam, mas eu fiquei em dúvida, eu junto. Também formas humanas, partes do corpo humano, eu também gosto de sobrepor, mixar”.
Essa abordagem permite que suas composições sejam não lineares, sem uma hierarquia óbvia entre os elementos. Nada é definitivo ou fixo; seu desenho é uma fusão interna, uma justaposição de referências que se misturam de forma fluida no papel. Não há uma única maneira de interpretar ou seguir a sequência das imagens.

Sobre o desenho (imagem acima), Nicholas aborda um período em que desenhava acidentes de carro, mas deixa claro que esse interesse não se manteve ao longo do tempo. Curiosamente, sua atração por essas imagens não parecia estar ligada a uma temática específica, mas sim à qualidade gráfica das formas: “Esse foi de uma época que eu tava gostando bastante de desenhar acidentes de carro. Mas, não necessariamente foi algo que se manteve. Era mais acho que sobre as linhas e as rodas, eu sentia que ficava interessante, porque ia quase para uma abstração”.
O impacto de um acidente de carro, com sua deformação súbita da estrutura, cria composições inesperadas, onde a ordem dá lugar ao caos: “É por isso que eu gosto tanto dessas hibridizações. Porque é a minha maneira de ver essas imagens e de distorcê-las e combiná-las”.
“[O desenho] É um grande processo de colagem que vai acontecendo na minha cabeça, no papel, mas que não há essas imagens reais sendo sobrepostas. Eu, como um mediador entre o que existe e o que vejo, acabo encaixando no papel.”
Nicholas Steinmetz
Nicholas Steinmetz: entre o esboço e a obra final
O Caderno de Artista costuma ser visto como um espaço de experimentação, um lugar sem compromisso, onde o erro pode acontecer sem grandes consequências. Para alguns, é apenas um suporte para rascunhos, um registro paralelo ao processo criativo. Mas, para outros, ele vai além, é em si parte fundamental do processo.
Esse é o caso de Nicholas Steinmetz, para quem o desenho vai além de um estudo preliminar, mas um elemento estrutural de sua criação. Seu processo parte do caderno como uma ferramenta fundamental de pensamento e desenvolvimento visual. Ele mesmo enfatiza essa ideia ao comentar sobre o projeto Caderno de Artista: “Acho que é legal esse seu foco no caderno, porque acho que ele não é muito valorizado enquanto ferramenta de pensamento. Ele é, basicamente, uma ferramenta muito presente e muito importante”.
Essa fala reforça a necessidade de olhar para o Caderno não como um subproduto do processo criativo, mas como um território onde a arte começa a tomar forma. Muitas vezes, é nele que o pensamento artístico realmente acontece, antes mesmo da primeira pincelada em uma tela.
Além disso, a relação de Nicholas com o erro como parte do processo criativo é algo que chama atenção. O erro não é um obstáculo, mas uma consequência natural do ato de criar. Sua abordagem lúdica e exploratória da arte reverbera um desejo de brincar com as formas, deixá-las existir como surgem, sobrepô-las e transformá-las.
Essa liberdade, esse olhar que recusa a linearidade e abraça a experimentação, torna cada página de seu Caderno de Artista um universo próprio. Nem tudo ali precisa ter um significado imediato, mas cada traço nos convida a percorrer caminhos inesperados, despertando a vontade de desvendar o que há por trás de cada desenho ou aceitá-los como são.






Comentários