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#1 Caderno de Artista: Camila Sombra

  • Foto do escritor: natalyolivier
    natalyolivier
  • 7 de mar. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 6 de mai. de 2025

Em uma manhã de sábado um pouco nublada, em Fortaleza, dirijo-me ao mais recente ateliê da artista Camila Sombra, que está localizado na Rua do Pocinho, no Centro. Sou calorosamente recebida pela artista em uma das salas do grande prédio Palácio Progresso. O espaço está com várias telas nas paredes e outras no chão, ainda em mudança. Porém, já é possível perceber seus recentes estudos e experimentações, que nos convidam a mergulhar em suas criações.

Camila Sombra é artista visual natural e residente de Fortaleza, CE. Utilizando as linguagens da pintura e do desenho como principais veículos, trabalha sua pesquisa em meio a intercalações e conexões de narrativas criadas por retratos, texturas abstratas e desenhos gráficos, falando de sensibilidade tátil, sobrecarga de estímulos, de adoecimento contemporâneo e das possibilidades de cura que permeiam o intangível. Isso, somado às referências de estudos em ilustração, quadrinhos e tatuagem, formam essa pesquisa contínua que integra seus trabalhos.


Primeiro caderno: a formação da Sombra

Seus cinco cadernos de artista estão organizados em ordem cronológica. Ao folhear o primeiro, de 2016/2017, encontramos um reflexo de sua fase no Estúdio Daniel Brandão, um reconhecido estúdio de desenho em Fortaleza, onde começou a se aprofundar no desenho aos 13 anos. Suas páginas revelam a evolução de seu traço e sua transformação. Ela ressalta: “Tu vai ver umas paradas que são completamente nada a ver com o que eu faço, e algumas paradas que têm um pouquinho a ver. [...] Eu acho que lá foi onde eu comecei a pensar ‘olha, dá pra trabalhar com isso’”. 

Esse caderno traz desenhos no estilo cartoon, muitos estudos do corpo humano e até alguns traços que já apontam para o estilo mais maduro da artista. Apesar de ser um caderno mais antigo, ela continua a revisitá-lo, para aproveitar suas páginas em branco para novos esboços. A qualidade do material e a possibilidade de trabalhar sem pressa tornam-o uma verdadeira relíquia de seus primeiros anos de criação.


Você se preocupa com a estética das páginas ou deixa fluir de forma espontânea?

Ela compartilha sua visão sobre o processo criativo de maneira descontraída: “Eu admiro muito a galera que faz do seu sketchbook uma obra de arte por si só, e tem aquela galera que posta Reels (Instagram), tudo bonitinho, passando as páginas do sketchbook, tudo limpo. Eu não consigo. Acho que sketchbook é pra ser sujo, feio mesmo, de experimentação. Eu, pelo menos, não vou chegar e fazer megacoisas de uma vez em uma tela. E se eu tentar isso antes? Fazer os estudos, né? E também coisas que não têm nada a ver. Ele pode ter uma finalidade, pode não ter. Eu gosto muito desse lugar do fazer por fazer”. Para a artista, a beleza está no processo, na liberdade de explorar sem restrições.


“O rabisco tem muito propósito no não propósito. É uma coisa corriqueira, cotidiana, em que você está vomitando ideias.” - Camila Sombra

Segundo caderno: a era acadêmica e o hábito

No segundo Caderno de Artista, com o desenho autoral dela de uma mulher com flores na capa, já representa mais sua fase na faculdade de Artes Visuais, em 2018: “Na faculdade, a gente tinha uma cadeira em que precisávamos fazer o nosso sketchbook, e todos os exercícios ao longo do semestre a gente ia colocando lá”. O caderno, então, se transforma não somente em um repositório de estudos, mas em uma prática diária de aprendizado e evolução. 

Sombra relembra a insistência do professor Rafael Carvalho, que sempre dizia: “Gente, desenhem no sketchbook de vocês, todos os dias”. Esse incentivo constante a tornou mais disciplinada, e o hábito de desenhar passou a fazer parte de sua rotina. “Naquela época, eu tinha muita energia e disposição para desenhar todo dia. Agora, estou tentando retomar esse hábito, porque percebo o quanto ele é importante para minha prática”, ela reflete, evidenciando como a faculdade foi fundamental para a criação de um ritual que, mesmo desafiado pelo tempo, permanece como uma base sólida em sua jornada artística.


Terceiro caderno: a Sombra mais contemporânea

O terceiro Caderno de Artista, de capa preta lisa, é mais contemporâneo, com desenhos da época em que ela trabalhava em um estúdio de tatuagem e do seu primeiro ateliê compartilhado, o “Cuadro Ateliê”. Ela fala sobre uma memória significativa de suas primeiras experiências nesse último espaço: “A gente não tinha nada, apenas uma casa enorme vazia e um sonho. A gente sentou no chão, botou nossos produtos de limpeza e a planta que a gente tinha comprado e ficamos desenhando”. Este momento, simples e carregado de um sentimento de possibilidade, em que o improviso e a paixão por criar se mesclam de forma genuína e poderosa, simboliza o começo de um novo capítulo para a artista, onde nada impediu que a criatividade florescesse.



E como você decide o que merece ser registrado? 

“Vou muito no feeling. Gosto de explorar muitas coisas diferentes entre si. A gente sente, né? Alguns momentos são especiais. Eu acho que pra quem desenha é muito natural se apegar a imagens que a gente produziu, do mesmo jeito que conseguimos lembrar de memórias muito específicas que a gente se apega. Não necessariamente eu vou só pela visualidade da coisa, vou muito também pelo que aquele momento significou pra mim”, ela responde, externando que cada vivência — por mais cotidiana que seja — se transforma em matéria-prima para o trabalho criativo. 


“Trabalho com arte está atrelado à nossa experiência de vida, então qualquer coisa que a gente vive é material para trabalho. Eu olho muito o movimento das coisas. E a gente é movimento também.”- Camila Sombra

Quarto caderno: o favorito e o de experimentações

Este caderno é, sem dúvida, o favorito de Sombra, e carrega consigo uma carga afetiva especial, ao ser presente de sua amiga de infância, que deixou uma dedicatória carinhosa. “Nesse sketchbook foi onde eu mais consegui explorar coisas diferentes, fazer exercícios diferentes. [...] Também foi quando comecei a testar pastel oleoso e adorei a  tateabilidade, o fato de ser muito macio, como parece uma tinta em bastão, tanto que levei para as minhas telas”, relata a artista. Como um verdadeiro caderno-objeto, um espaço íntimo e experimental, Camila tateia e busca novas formas de se expressar e expandir sua linguagem artística por meio do Caderno de Artista.



Você vê o caderno de artista como um diário, com aspectos autobiográficos?

“Com certeza. Eu acho que um diário um pouco mais desordenado, que é um pouco mais a minha cara”. Essa ideia de desordem parece ser parte de sua prática, um retrato de sua vida cotidiana, um lugar onde tudo se mistura – sentimentos, momentos e pessoas. "Em vários cadernos anteriores, aparecem desenhos de meus ex-namorados, amigos e outras pessoas próximas. Eles estão sempre presentes no meu dia a dia, são as pessoas que eu quero retratar, usar como base para estudos", explica. Cada figura, cada gesto, cada lembrança é registrada com a intenção de preservar não apenas a aparência, mas também a essência de suas relações e vivências.


Reparamos nos desenhos em que ela aponta ser seu ex-namorado, viagens com ele, momentos mais sombrios como a pandemia, datas escritas (imagens acima). Muitos dos desenhos e dos próprios cadernos estão carregados de memórias e afetos. “Eu sempre anoto tudo… geralmente, eu coloco quando faço desenho de algum momento que rolou comigo”, conta. Assim, os Cadernos de Artista se tornam testemunhos de uma trajetória pessoal e emocional, transformando a arte em uma forma de reflexão contínua sobre a própria vida.


Você acha que o caderno de artista te ajuda a ter ideias futuras?  


“Muita coisa de sketchbook acabou virando um trabalho depois, mas eu vou trazer só um exemplo, tem um desenho (desenho do meio da imagem acima), esse da menina sentada na cadeira com essa explosão atrás saindo dela, ele veio de um sketchbook (primeiro desenho da imagem acima). E foi meio que um iniciozinho de ‘Interessante e se eu elaborar um pouco mais isso?’, pra virar isso aqui (pintura na terceira imagem). Muita coisa do sketchbook você só vai entender depois. E a graça dele é isso: você fazer as coisas de forma despretensiosa, sem necessariamente pensar em querer ter um trabalho concluído lindo e perfeito, que vai ser emoldurável”.

Neste aspecto, ela toca em um assunto delicado, que em 2021 ela foi diagnosticada com fibromialgia: “A dor física sempre esteve presente, mesmo que eu não entendesse direito o que era, e, nesse período, eu estava muito tentando entender o que era isso, o que era viver tendo fibromialgia com 20, 21 anos”.


“Muitos desenhos que eu fazia eram como uma resposta de tentar colocar em ícones coisas que eu estava pensando/sentindo para organizar melhor a minha cabeça.” - Camila Sombra

Qual página significa muito para você? 

Ela aponta justamente a página com o desenho do meio, da imagem acima, que foi quando começou essa pesquisa mais recente, um ponto de virada que veio como resposta a um turbilhão interno: “Ele vem muito em resposta a tudo isso. Eu estava somatizando o que sentia e buscando entender também”, diz ela, como se, ao transformar seus sentimentos em imagens, estivesse tentando decifrar a complexidade da dor que não se limita ao físico, mas que também se reverbera no psicológico. 

Esse momento, aparentemente espontâneo, denota um marco de descoberta, onde o desenho se torna uma tradução visual da alma. Para ela, o processo criativo é uma forma de dar forma ao que, muitas vezes, não pode ser verbalizado – uma experiência visceral que exige ser manifestada de algum modo. "Falo dessa página, porque foi um pontapé inicial para um estudo que eu nem sabia que estava começando", compartilha, evidenciando o quanto o gesto criativo foi, na verdade, uma tentativa de compreender o próprio processo.

A dor, seja física ou emocional, sempre teve um papel central na arte como um todo – não apenas como tema, mas como motor criativo. Ela exige um espaço para ser processada, organizada e, acima de tudo, transformada. Camila Sombra, ao colocar suas experiências de dor em suas obras, faz mais do que simplesmente representá-las – ela as revisita, as questiona e as projeta como elementos de estudo e reflexão. 

E o Caderno de Artista se converge em um espaço onde o caos interno ganha significado e se transforma em algo novo, como podemos ver na imagem abaixo, uma prévia do seu quinto caderno, mas que a artista continua com sua busca desse autoconhecimento e de sua nova pesquisa sobre este tema de cansaço e dor.


“Nessa época eu não sabia o que eu tava falando, o que eu tava pintando, e isso de entender sobre o que você está pintando é um processo que pode demorar, porque às vezes você está colocando coisas muito de dentro de você ali, e você precisa ruminar para entender o que está acontecendo." - Camila Sombra

Quinto caderno: o grimório

No seu quinto Caderno de Artista, ela reúne uma combinação de desenhos e escritos que, mais do que estudos, são verdadeiros registros de pensamentos sobre sua própria trajetória. Nele, ela se mostra mais teórica, mesclando imagens e textos para investigar as raízes e os "porquês" que sustentam o caminho artístico que foi trilhando, um caminho encontrado no meio das páginas.

Aqui, o caderno se transforma em um espaço de pesquisa, onde as palavras e os desenhos se entrelaçam, cada um contribuindo para o outro de maneira fluida, às vezes até sem uma conexão imediata. 



“Uso esse muito como um grimório”, ela explica, transparecendo o quanto este Caderno de Artista é um lugar de anotações espontâneas e contemplações. “É um espaço onde eu vou relatando minhas descobertas, meus estudos. Artistas, pesquisadores, teóricos – tudo que de alguma forma dialoga com minha pesquisa, eu anoto”. 

Cada rascunho mostra ser um ponto de partida, uma possibilidade ainda em formação, sem a pressão de ter que se tornar algo pronto ou finalizado. Ideias vão e vêm. Está tudo bem abandonar uma ideia ruim, está tudo bem retrabalhar uma ideia. Não precisamos nos apegar tanto ao que estamos criando, porque são apenas ideias, e ideias são fluidas, mutáveis", diz, revelando sua visão sobre o processo criativo: algo que não exige perfeição, mas liberdade para explorar, errar e recomeçar.


Na imagem acima, ela aponta para o desenho de seu amigo à direita: “É uma fotografia do Esmeraldo, que é do Cuadro Ateliê, foi em um dos primeiros dias que a gente estava ocupando lá, sem móveis, apenas com nossos amigos para desenhar. Aí choveu, e ele disse ‘Tem uma bica, vou tomar banho aqui’, e o banho de bica, pra mim, me traz muito minha infância no interior”. Produzir seu Caderno de Artista vai além de rascunhos; é um processo de reflexão, através da memória e dos sentimentos que se transformam em imagens no papel.

Camila Sombra: a arte como caminho

No final de nossa conversa, nos despedimos contentes com a troca. Conversamos um pouco mais sobre seus projetos futuros. E o que fica é que ao longo de sua trajetória, o início de sua jornada artística se apresenta como um ponto de inflexão decisivo. Em meio às primeiras experimentações e ao amadurecimento do seu traço, Camila Sombra construiu, em seus Cadernos de Artista, uma base sólida para o que viria a ser um caminho de evolução e autodescoberta. Mais do que registros de técnicas e estudos, esses cadernos são espaços onde a artista dialoga com suas próprias memórias, emoções e processos internos. 

Cada página se torna um testemunho da busca por sentido, da liberdade em explorar sem pressa de chegar a uma conclusão. Eles exibem uma prática íntima, onde o processo é tão importante quanto o resultado, e nos convidam a acompanhar sua trajetória, marcada pela reinvenção, pela transformação das ideias e pela coragem de expor vulnerabilidades, sensibilidades que se tornam, no fim, a essência de sua arte.


“Eu acredito muito no processo, e o processo é a finalidade por si só.” 

Camila Sombra, 2025.



2 comentários


Anne
07 de mar. de 2025

Muito bacana ver como as artes acompanham as fases da vida de um artista.

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natalyolivier
natalyolivier
04 de abr. de 2025
Respondendo a

Não é? O Caderno de Artista acaba sendo um suporte muito importante e que, geralmente, acaba acompanhando o artista pelas fases da sua vida. 😚

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Sobre

Nataly Olivier

Escritora e artista visual. Pesquisa literatura autobiográfica feminina e cadernos de artistas como registros autobiográficos.

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Autorretrato, 2020. Óleo sobre tela, 30 x 30 cm_
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