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#4 Caderno de Artista: Tamires Ferreira

  • Foto do escritor: natalyolivier
    natalyolivier
  • 10 de jun. de 2025
  • 6 min de leitura

Tamires Ferreira é aquarelista, artesã e educadora artística. Possui formação acadêmica em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará. Em 2016, iniciou sua carreira no universo das Artes ao criar adornos manuais com a técnica da Aquarela e reutilização de retalhos. Seu pincelar é vívido, intenso e reflete as fragilidades e impermanências do seu corpo cíclico. Como educadora, pincela a poética de artistas como Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros e Conceição Evaristo com técnicas de aquarela e design artesanal.


Cadernos como colheita: escrita, criação e autoescuta

Durante nossa conversa em seu ateliê, Tamires compartilha que mantém todos os seus cadernos, pois escreve desde muito nova. “De escrita eu tenho desde a adolescência”, comenta. Os cadernos, para ela, funcionam como registros de vida e como ferramentas de organização pessoal e autodesenvolvimento. Em sua rotina, eles atuam como suporte tanto pessoal quanto profissional: “Os mais recentes de pintura têm poesia, ideias de brinco, faço algumas paletas, catalogo tecidos”. Multifuncionais, seus cadernos acompanham o fluxo da criação e da vida.

Inicialmente mais ligados à escrita e ao diário, com o tempo seus cadernos passaram a incluir também pinturas. “Os meus cadernos, na verdade, a maioria deles são de escrita, e os de pinturas eles não são muito organizados, são bem caóticos, do meu próprio fluxo criativo”, complementa. Contudo, a escrita e a poesia sempre estiveram muito presentes na vida da artista, se tornando alicerce do seu trabalho.


“A textualidade tá muito forte no que eu faço, uma aflição de sempre estar justificando as coisas.”

Tamires Ferreira 


Para Tamires Ferreira, os cadernos representam esse espaço-objeto que a ajuda a ver seus padrões artísticos e encontrar suas pesquisas: “O caderno também é um espaço onde você pode observar os padrões, por exemplo, eu observei que tinha um padrão de sempre desenhar mulheres encolhidas”. Ela mostra três imagens com essa mesma postura corporal, mas com variações significativas (imagem abaixo): “São fases diferentes, pinceladas diferentes e cores diferentes, é a mesma pose de recolhimento, mas formas distintas de se sentir recolhida”.

Ela vê no ato de reler seus cadernos uma forma de reencontro com si mesma: “Percebo que a releitura desses cadernos pode ser uma oportunidade de você se conectar com coisas que antes te assombravam, que talvez hoje já estão resolvidas, ou respostas que você já tinha naquela época que hoje você se questiona, não acho que exista uma linearidade”.

“Acho que os cadernos têm esse lugar de você se conectar com você mesmo, ainda mais quem escreve mais do ponto de vista confessional, intimista, sem ter aquela ideia de que alguém vai ler, então você se desprende muito dessa ideia de perfeição e vira uma coisa mais íntima mesmo.”

Tamires Ferreira


Durante a pandemia, seus cadernos ganharam ainda mais relevância. Ela relata que esse período foi de total reclusão e introspecção, refletido também na mudança de tom e conteúdo dos escritos: “E quando chego na era da pandemia, tirei esse período de isolamento completo tanto de contato com as pessoas quanto de relacionamentos amorosos, eu criei como se fosse uma espécie de concha e comecei a voltar para mim mesma para coisas mais concretas, e não tão voláteis. Isso se resume muito a esses cadernos que eu escrevi já na época da pandemia, até o formato”.


Sobre esse período, ela também diz estar mais madura, e pondera sobre os cadernos antigos, de mais jovem, que eram atribulados mais ao romântico, ligado à própria fase jovem. Ela ressalta: “Ao chegar nesse período de vida adulta, da maturidade que eu vivo hoje, a minha escrita mudou, as coisas que me afetam hoje passaram a ser coisas que não estavam ligadas a coisas afetivas, o amor deixou de ser um problema na minha vida e eu comecei a me interessar por outras coisas, por exemplo, a minha vida profissional, a minha vida afetiva, eu, Tamires comigo mesma, envelhecimento. É como se ao longo desse período meus cadernos narrassem toda a transformação da minha vida”.


O Caderno de Artista para Tamires já era um suporte para ter todas as ideias, mas ela fala que depois da pandemia se tornou ainda mais essencial: “Todas as minhas ideias de pintura e de criação eu registro. Depois da pandemia minha memória ficou muito ruim, e aquele hábito que eu já tinha de registrar virou quase uma obsessão”.


Caderno de Artista como pertencimento

Tamires Ferreira demonstra em suas redes sociais seu lado mais socialmente consciente, e que ela reflete muito sobre o mercado em que está inserida e sobre sua própria arte, na nossa conversa, ela traz um ponto importante, que é como o material de qualidade faz diferença nos trabalhos. 


Além de criação, os cadernos também representam para a artista um espaço de afirmação e pertencimento. Ela se pronuncia sobre a importância de investir em materiais de qualidade, especialmente como mulher negra artista, superando a ideia de que o melhor é sempre para o outro, para vender: “O caderno que eu compro mudou muito. É interessante observar a estética do caderno que vai se transmutando nesses processos, por exemplo, quando eu comecei a fazer os cadernos de pintura eles eram em folhas muito ruins, e aí à medida que eu fui amadurecendo esteticamente percebi que o papel fazia muita diferença, que eu merecia pintar em papel de qualidade, que eu deveria sair desse lugar de amadorismo, de mudar o pensamento que o melhor material sempre vai ser pra outra pessoa, não pra você”.


Ela também aborda a questão das redes sociais,  como os artistas têm essas plataformas como meios para divulgar o trabalho, que, entretanto, não é realmente deles, ela vê nessa parte analógica dos Cadernos de Artista como um dos meios de fincar sua autoria, como podemos ler abaixo:


“Eu vivo muito nessa loucura dos fluxos de ideias, e o lugar que eu confio de anotar são os cadernos, porque as outras mídias são muito voláteis, não são minhas. Pra mim, o registro analógico tem esse poder de ser algo que me pertence, ele não pertence a uma plataforma.”

Tamires Ferreira



Ao contrário das redes sociais, que são imediatistas, para Tamires, os cadernos são o contrário: “Pra mim, o caderno não tem este cunho imediatista, eu registro aquela ideia e às vezes ela só vai se tornar real muito depois”. Esse tema das redes sociais é algo que a artista está constantemente meditando e que incomoda, como podemos ver na imagem acima.


Esse entendimento também atravessa seu trabalho como educadora. Em oficinas, os cadernos são usados como ferramenta metodológica. Na mais recente, sobre colares aquareláveis, compartilhou seus próprios cadernos com os participantes, demonstrando o processo de criação e a importância do registro para ampliar as possibilidades autorais. “Na minha última oficina sobre colares aquarelaveis, a parte da metodologia que eu utilizei foram os cadernos, porque cada era pra criar um adorno autoral, e usei vários dos meus cadernos para demonstrar às pessoas como é que eu fazia esse processo, para mostrar como elas poderiam tá documentando as ideias e estar ampliando sua cartela de possibilidade”.


Os cadernos também a auxiliaram em suas obras para a exposição "Anunciação: vou te olhar do vazio imenso" (2025), além de tentar fazer circular suas artes de outra forma, como exemplifica: “Eu pego pequenos textos que escrevo e vou colocando nos marcadores de livro para fazer com que essa escrita tenha movimento, de colocar minha escrita como forma itinerante” .


“Porque, pra mim, a arte precisa circular. Ela não pode ficar presa a mim, ao meu ateliê, pra mim não tem sentido.”

Tamires Ferreira


Tamires Ferreira: e a arte de se escrever no mundo


Tamires Ferreira utiliza seus cadernos como ferramentas centrais de criação, autoconhecimento e pertencimento. Seus cadernos são caóticos e livres, reverberam seu fluxo criativo sem julgamento e lhe permitem mapear padrões visuais e emocionais.


Os Cadernos de Artista para ela são um suporte contra o esquecimento e uma concha de introspecção. Eles também representam uma resistência contra o imediatismo e a efemeridade das redes sociais, funcionando como um espaço de autonomia e autoria. Além disso, servem como material pedagógico em suas oficinas, ampliando as possibilidades criativas de outros artistas.


Em sua trajetória, o caderno se torna testemunha, confidente e ferramenta — um espaço íntimo que acolhe tanto a fluidez da vida quanto a densidade da arte.



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Sobre

Nataly Olivier

Escritora e artista visual. Pesquisa literatura autobiográfica feminina e cadernos de artistas como registros autobiográficos.

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Autorretrato, 2020. Óleo sobre tela, 30 x 30 cm_
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