#3 Caderno de Artista: Tatiana Tavares
- natalyolivier

- 7 de mai. de 2025
- 6 min de leitura

Tatiana Tavares é professora, artista visual e pesquisadora. Participa de coletivos de fotógrafas na cidade de Fortaleza, buscando desenvolver trabalhos individuais e em conjunto a outras artistas. Na perspectiva fotográfica, tem uma relação mais próxima com a fotoperformance e questões autobiográficas.
Graduada no curso de Licenciatura em Artes Visuais do IFCE, Pós-graduada em História da Arte através da Universidade Estácio de Sá. Mestre em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da UFC e Especialista em Arte-Educação por meio do Senac.
O Caderno como Diário: quando a palavra vira imagem

No início da nossa conversa em sua casa, Tatiana Tavares revela que considera o Caderno de Artista como um diário: “Eu nem chamo de Caderno de Artista, eu chamo de diário. Porque talvez ele mude um pouco do artista visual, no sentido do pintor, desenhista que acaba fazendo muito desenho. O meu serve até como metodologia de pesquisa, começa com a escrita”. Entrelaçando esta fala com o próprio trabalho da artista que tem aspectos autobiográficos, os seus caderno se distanciam um pouco da ideia de um suporte técnico, e se aproxima mais de uma esfera íntima, confessional com a escrita que a faz refletir. No seu trabalho o verbo precede a imagem.
“Eu chamo o caderno de diário porque eu acho muito pessoal. É uma escrita muito livre, só que é da escrita que saem as fotografias, onde eu começo a pensar.”
Tatiana Tavares
Ao folhear as páginas de um dos cadernos, encontramos registros de escrita, desenhos feitos de caneta e algumas fotos coladas, ela afirma: “Ele é bem livre, quando eu não conseguia escrever eu desenhava. Por isso que eu chamo de diário, porque os desenhos não tinham a pretensão de ser uma obra, mas de ilustrar o que eu não conseguia escrever naquele dia, que estava muito pesado” (imagens abaixo).

Tatiana apresenta o Caderno de Artista como um espaço de despressurização e acolhimento: o desenho substitui a palavra quando ela falha. Essa troca entre linguagens, sem hierarquia, reforça o caderno como um espaço onde o pensamento se dá em vários meios. É um território híbrido, onde o peso emocional guia a escolha.
Quando você começou a cultivar o Caderno de Artista?
A artista reforça a ideia do diário: “Eu lembro de ter sido uma criança que usou muito diário, só que eu perdi todos. Aí não sei por que, em 2019, eu achei que tinha que escrever. Acho que eu teria o registro que não fosse talvez fotográfico. De pensar ‘Como vai ser ler isso?”. Este trecho fala de um retorno à materialidade, à memória afetiva do papel, da letra, da lentidão. A pergunta “Como vai ser ler isso?” aponta para o gesto de antecipação do próprio olhar futuro, uma tentativa de dialogar com ela mesma, com a própria memória.

Ela compartilha algo muito atual: a sobrecarga do digital: “Eu tenho me voltado para o analógico: para o desenho, a escrita e a colagem. Até tenho feito fotografia de viagem com a “instax” porque só o digital pra minha cabeça ficou demais. Tanto que eu fotografo no celular, pois peguei um bloqueio criativo da câmera. E como o meu processo é muito escrito, eu sei o que eu quero fazer, eu sei a roupa, a pose. Como já está na escrita, eu fotografo muito rápido e faço pouca foto, poucos cliques”, como demonstrado nas imagens abaixo. O retorno ao analógico aparece como algo mais leve de lidar, ou como forma de retomar o controle do processo criativo. Seu Caderno de Artista acolhe o inacabado e o fragmentário, ajudando a planejar o trabalho na fotografia.

É importante perceber como o seu Caderno de Artista é o lugar onde ela ensaia esse “dizer de si”, que depois se desdobra em outras mídias, segundo Tatiana: “Aqui era eu escrevendo as coisas latentes que eu achava que podia se tornar fotografia, virar tema de fotografia. E era um período, que ainda nem era pandemia, mas eu tava voltando muito pra mim, pra ter coragem de falar das questões de ansiedade, que é aí que começa a fotoperformance. A minha questão autobiográfica começa falando de ansiedade (imagem abaixo). Então, não é fácil. Tem muita coisa aqui que eu não consegui fazer, mas que está no campo das ideias”.

Portanto, a artista começou a cultivar seus Cadernos de Artista em torno de 2019, mesmo quando já trabalhava como fotógrafa: “Em 2019, eu achei que o meu trabalho precisava amadurecer um pouquinho, precisava de um tema. Foi o período em que eu saí de casa e eu não queria mais fazer o trabalho que eu estava fazendo. Eu acho que estava fazendo muita coisa solta, não tinha um discurso, um trabalho mais consistente. Eu não tinha nem ideia do que eu estava fazendo, porque eu descobri que aquilo se chamava fotoperformance. Então, em 2019, eu comecei a escrever e eu não sei por que eu comecei a desenhar o que eu queria fotografar”. Esse trecho revela como o caderno é também sua ferramenta de transição e reorientação artística. Ele surge no momento de ruptura e redescoberta, como se o processo de escrita e a materialidade do caderno fossem o meio de se reencontrar.
Os desenhos, por serem representações rápidas de seu estado no momento, não são muito elaborados, são carregados de urgência (imagens abaixo):

“Eu desenho sem muita borracha. [...] Eu queria um desenho simples, rápido, que não precisasse elaborar tanto. Que falasse um pouco do momento. Era eu, como se fosse uma representação minha.”
Tatiana Tavares
Logo depois ela mostra um caderno que tem muito carinho, que tem parte do período de pandemia registrado, datado de março de 2020 a outubro de 2020. Ela destaca: “E, pra mim, ter isso registrado é um pouco chocante. Eu registrei a pandemia. Eu escrevi muito na pandemia, que era pra não esquecer o que estava acontecendo”. Este caderno mistura muitas referências, escritos e ideias. É diário, é testemunho, é arquivo. “É muito estranho ver esse caderno, porque eu não costumo voltar para ele”. O Caderno que ela diz voltar para revisitar ideias é o de 2019.
Depois desse período ela percebeu como fica muita coisa misturar ideias com escrita, seus cadernos passaram a ficar separados em temas, um para escrita e outro de pesquisa e ideias. O de pesquisas, como exemplo, ela conseguiu realizar algumas coisas como esta oficina da imagem abaixo:
“Eu percebo que os cadernos têm uma linguagem.”
Tatiana Tavares

Caderno de colagens e camadas de si

Seu Caderno de Colagens é muito interessante, ela revela: “Não sei por que eu decidi que ia fazer só colagem”. Tatiana começou fazendo colagem com imagens aleatórias de arte, testando com tinta neon e pequenos adereços, como pedrinhas de bijuterias. Posteriormente, começou a usar fotos de familiares, dos álbuns de fotos da família, que fez parte da exposição Palimpsesto de memórias, 2022. Ela complementa como nesse processo do caderno de colagens já devia ser ela testando essa ideia da exposição, e que tudo surgiu de forma despretensiosa no Caderno de Artista: “Aqui já devia ser o processo, porque tem foto de família e já devia ser eu testando”, ela diz ao ver as imagens (imagens abaixo).

Ela também revela a importância do Caderno de Artista como registro de temas: “A fotografia nasce da escrita. Vou escrevendo e não tem a pretensão de se tornar fotografia, mas aí vi que tem temas que se repetem. Acabei ‘catando’ esses temas e trabalhando neles”, então a escrita nasce como campo fértil, onde os temas se repetem e, por isso se revelam. É no caderno que a recorrência aparece e onde o inconsciente criativo se manifesta.

Neste processo de olhar as páginas dos cadernos, a artista diz como tudo tem a ver com sua fotografia: “Percebo que até a minha escrita, que eu achava que não tinha relação com a fotografia, na verdade tem. Teve uma vez em que eu estava escrevendo sobre um trabalho recente, e então resolvi reler algumas páginas antigas dos meus cadernos. Acabei encontrando textos que pareciam falar exatamente sobre aquele novo trabalho — mesmo tendo sido escritos muito antes, em outro contexto. Isso me fez perceber que, no fim das contas, tudo acaba sendo sobre você. Se você faz um trabalho autobiográfico, principalmente, que você tira o tema da sua vida, mesmo que seja uma fabulação, acaba que tudo vai convergir pra você”. Essa afirmação pode ser a chave de leitura mais ampla do trabalho de Tatiana Tavares: o caderno, a escrita, a imagem, tudo converge para o autorretrato expandido. Mesmo que não seja intencional, tudo reverbera a artista.

“Tudo que une sua arte é você. Você é o elo, o ponto de encontro. Por mais que tenha escrito sem essa pretensão.”
Tatiana Tavares

Tatiana Tavares: “dizer de si” remete coragem
Tatiana Tavares tem o Caderno de Artista como um espaço de acolhimento, procura as palavras na urgência de registrar sentimentos e pensamentos, e quando a escrita parece não dar conta, o desenho toma posse. Portanto, seus cadernos têm o pensamento registrado em vários meios: colagem, escrita, desenho. O peso emocional guia a escolha.
Seus Cadernos de Artista, assim como nossos pensamentos, acolhem o inacabado, o fragmentário, o complexo, facilitando a colheita de ideias e temas e da organização visual destes. É onde tudo que se passa internamente na artista, se organiza, de forma que ela possa se localizar e pensar em novos trabalhos, que surgem no momento de ruptura, de procura de si e de redescoberta, onde por meio da escrita e outras formas, percorre um caminho para se reencontrar e poder imaginar novos futuros artísticos.







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