#5 Caderno de Artista: Céu Isatto
- natalyolivier

- 10 de ago. de 2025
- 9 min de leitura

Céu Isatto é curadore e artista trans não binárie que tem como foco de pesquisa questões relacionadas a linguagem, desvio e tradução falha. Trabalha e pesquisa diversos meios — pintura, instalação, performance, vídeo, escrita — a partir de referências da literatura, cinema, história da arte , poesia e trocas de ateliê (ou curatoriais) com o intuito de ver onde se chega a partir desses campos de negociação: quão longe pode ir a partir de junções de elementos inicialmente díspares levados para longe de seus contextos originais.
Já expôs e curou exposições coletivas em espaços independentes (como SELVA em NY, galeria GRUTA em SP, Entr3posto em SP) e espaços culturais de importância ao redor do país como FUNARTE - SP e o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul. Participou de residência ISTA em 2022 e em 2023 ganhou o prêmio destaque na mostra Fora da Margem realizado por edital público na galeria de arte do DMAE
Atualmente é mestrande bolsista CAPES em Processos e procedimentos artísticos na UNESP.
Cadernos de Ceú Isatto: entre o corpo, o analógico e o digital

Conversar com Céu Isatto é entrar em um território onde o corpo, o gesto e o digital se misturam. Em nossa conversa on-line, elu diz que começou no mundo das artes por acaso, por meio das zines e quadrinhos: “A zine veio em 2017 ou 2018, e naquela época eu não desenhava, não fazia nada de artes, acho que foi meu primeiro contato mesmo mais sério, no sentido de colocar energia de fato com arte, porque eu escrevia e fazia arquitetura na época e uma amiga queria fazer uma zine comigo, eu fazia o texto, ela fazia as imagens, acabou que não deu certo, mas a vontade continuou, decidi fazer eu mesme. E daí eu tentei, na época comecei mexendo mais com arte digital, e no final o resultado ficou péssimo, mas eu gostei. E daí mudei de curso para artes visuais em 2019, e comecei a pesquisar mais isso; livro de artista, editorial. Então meu contato com o desenho foi um pouco nesse rolê da zine, do quadrinho, da publicação independente que é algo que ainda é muito interessante pra mim: você poder trabalhar essa organização curatorial de texto e imagem que cabe num espaço no meio das mãos, algo que é íntimo no sentido que é muito tátil, é muito corporal e a maneira como você imprime esse algo físico é muito importante pra mim”.

A dimensão reduzida do caderno de artista, de zines, oferece justamente essa proximidade: uma extensão do corpo e da sensação tátil. A partir das zines, o digital passou a ter grande peso em seu trabalho, mas sempre em diálogo com o analógico, quebrando barreiras e explorando textura e impressão em materiais pouco usuais, como notas fiscais, como as imagens acima que são da zine de Céu de 2024, feitos com poema seu e fotos impressas em papel térmico de notas fiscais que depois são escaneadas de alta e reimpressas em jato de tinta em outro papel mais durável.
Elu complementa: “Eu comecei trabalhando muito com o digital, até 2020 eu dava um curso chamado “Arte Ciborgue” onde eu descobri que gostava muito de dar curso. Era on-line, durante a pandemia, que era sobre trabalhar com meios bidimensionais, imagens digitais e analógicas, e como você passava de uma coisa pra outra, da transcrição do digital para o analógico, muito por meio de impressão, térmica, de tinta, às vezes serigrafia e outras coisas. Como as impressoras eram meio limitadas e exploramos como a gente podia usar essas limitações pra ter ruídos muito específicos e próprios do processo analógico da impressora; e da digitalização, do scan”.
Dessa forma, este formato de caber nas mãos cria afetividade com o objeto, que para seu processo artístico, importa muito.
A gente dá importância muito grande a obras grandes ou a espaços físicos muito grandes, quando na verdade o livro (caderno), esse formato que cabe na mão, é muito importante também porque cria afetividade. Uma questão tátil mesmo que eu percebi que me agradava, e a partir disso eu comecei a desenvolver o desenho.
Céu Isatto

Ao longo do tempo, Céu se aproximou mais do desenho físico, principalmente em seus cadernos, encontrando uma forma de contato direto com o corpo: “Comecei a escanear também desenhos analógicos pra usar no digital e com o tempo eu passei mais para o analógico, porque eu gosto desse contato com o meu próprio corpo, sentir a textura do papel, sentir como meu corpo vai trabalhar com a própria textura do lápis, porque no digital é muito mediado, é simplificado demais. Por exemplo, ter o “Pacote Adobe de textura de Aquarela”, é legal, mas é limitado o que você pode fazer com aquilo. Trabalhar com mídia física tem um lado bom que é muito mais imprevisível”.

Elu também ressalta, que a maioria dos seus cadernos são feitos por si, onde pode testar coisas novas, papéis e produtos, o que interfere também nos desenhos:
“Eu tenho o hábito de encadernar os meus próprios cadernos. E a cada tempo, eu vou testando coisas novas. Acho interessante isso de poder trabalhar com diferentes cadernos, de diferentes materiais”.
Você separa ou produz os cadernos por temas?
“Depende da época. Se eu tentar organizar por temas eu sinto que não funciona muito bem porque as coisas começam a se borrar. Meu processo é meio que desorganizando as coisas. No sentido que eu sou uma pessoa muito metódica às vezes, mas que eu entendo que em certos momentos eu preciso me apegar ao improviso ou me desapegar mesmo. Então, por exemplo, todos os cadernos têm o meu nome e a data, o ano, é só isso. Então acaba sendo por época, eu vou fazendo e acabo vendo o resultado depois. Aí quando eu escaneio eu posso organizar em pastas, em temas específicos. É um processo mais natural pra mim, organizar as coisas depois. Fazer uma curadoria póstuma”.

No seu caderno há muita textualidade e poesia junto aos desenhos, como funciona esse processo? É proposital?
“Percebi isso porque eu comecei a usar muito o carvão e materiais que borraram nas páginas. Então às vezes eu percebia quando eu tinha dois desenhos nas duas páginas seguidas, acabava um borrando o outro e às vezes era legal, e outras eu não gostava. Então eu comecei a trabalhar uma página um desenho e a outra a escrita. E não só no caderno: tenho muita anotação escrita impressa em nota fiscal junto com fotos que eu deixo coladas na minha parede quanto no grupo de whatsapp infinito que eu tenho comigo mesme”.

A noção de corpo está sempre presente: o gesto que toca o papel, o tato que guia o traço e até a sensação de gosto e som que o ato de desenhar provoca. Mais recentemente, Céu tem experimentado pastel seco (primeira imagem abaixo), onde desenho e pintura se borram, criando superfícies híbridas. Já na segunda imagem abaixo, elu utilizou um livro com obra um desenho de pastel seco e caneta em papel vegetal com alfinetes sobre ele criando essa casca, ele brinca com objetos, com suas espessuras e como podem ser manuseados, em vez de permanecerem distantes na parede em um cenário de exposição.

Pergunto como é sua lógica com o caderno e a pintura, se o desenho para elu é fator separado da pintura, o que responde: “Agora tô trabalhando pastel seco sobre tecido, que é um desenho mas que está indo quase para uma lógica da pintura, é difícil separar uma coisa da outra, especialmente no meu último caderno, pastel seco e oleosos as coisas se borram um pouco, e você tem a variação de cor, fica meio abstrato até onde vai o desenho e a pintura”.

E sobre elu usar a tela como um todo ,inclusive as laterais, ou objetos incomuns como arte, Céu explica o porquê: “É coisa do livro, essa sensação de caber na mão é muito boa, eu não gosto dessa ideia de trabalhar com objeto que fica na parede e esse objeto não tem nenhuma profundidade. Ele não é parede, mas é quase como se ele fosse um semiobjeto e quase que não é objeto, quase que não tem uma tridimensionalidade, então o que gosto trabalhar é quase como a grossura do livro e dar essa tridimensionalidade um pouco maior. Pensar a tela como um livro, um tijolinho, uma arapuca. Não é muito interessante pra mim pensar na tela só como uma superfície plana”.
A desobservação da vida para colher os vestígios no desenho

Em nossa conversa mais adiante, entro no tema sobre seu estilo de traço no caderno, que não é um traço preciso, e que os desenhos não têm o aspecto realista, o que elu diz: “Eu acho que tenho uma dificuldade grande assim nos primeiros contatos com uma imagem nova que eu não sei como desenhar, então tentar me aproximar pra uma lógica fotográfica demais não é o que funciona pra mim. Tanto que muito do que eu acabo fazendo acaba sendo pouco utilizado, me interesso mais por uma curva, uma textura, um contraste que alguma imagem tem do que de fato seguir a proporção e tentar uma mímese perfeita da realidade. Então acaba sendo desse desvio que eu tenho de uma observação real, um desenho quase de imaginação a partir da observação, uma ‘desobservação’ que permite que eu entre em contato com o desenho de outras formas e veja isso de outra maneira também, fazendo com que eu preste mais atenção ao desenho quando eu desvio da forma fotográfica porque se eu ficar prestando muita atenção em tudo, em cada detalhe, acabo perdendo um pouco a sensação que aquilo me passa”.

Portanto, Céu está mais interessado em passar para o papel o que sente quando algo atinge seus olhos e chama sua atenção, mas procurando de sua forma alguma figura ou traços de algo, que faça sentido depois.
Por exemplo, na primeira imagem abaixo, foi registrado um dia que elu saiu para desenhar no caderno e começou a chover, correu para um restaurante e protegido da chuva desenhou esse momento. Na segunda imagem elu diz que esse é um exemplo de desenho que não conseguia copiar a imagem e foi colocando traços que representassem a forma em que via: “É a foto de alguém na cama, com esse emaranhado de lençóis, era uma pessoa que eu tentei desenhar na hora, eu não consegui desenhar tão bem, desenhei só um trecho do corpo dela, e depois fui resolvendo as coisas, tipo o joelho um traço assim, uma curva só”.

Pra mim é mais interessante ter contato com um traço de canto, com um vestígio que uma imagem deixa em mim, do que tentar capturar tudo de forma homogênea, vou muito por esses pontos e focos específicos de cada imagem.
Céu Isatto
Para encerrar este assunto, é dito: “Eu gosto muito de fotografia, mas ao mesmo tempo tem esse mito da fotografia como se ela fosse uma representação da realidade, quando nenhuma foto é de fato real, é uma ficção de alguma forma, tem o enquadramento, tem a lente, tem tudo intencionado por trás e um contexto específico do mundo ao redor e de quem produz a foto, então a fotografia acaba trazendo de alguma forma uma homogeneização da realidade, quando muito da realidade é ficção. Então o desenho com esse traço torto permite que você perceba outras possibilidades de uma realidade que também é ficção de alguma forma. O desenho passa muito por essa coisa do próprio gesto, do tato com o corpo, a fotografia é mais mediada pela máquina”.
A poesia como disparador de imagens embaçadas e poéticas
Céu também usa muito da poesia, das suas leituras, de imaginar uma poesia, não como algo óbvio e certeiro, mas como a própria poesia: volátil, maleável, vestígios de algo sentido, ou visto em uma vista longa e neblinosa. Em como é possível desenhar poemas através de seus ritmos, sons e imagens mentais. Elu explica: “Trabalhando essas coisas de uma forma poética, de imagens meio embaçadas que você não tenta de fato ilustrar de uma forma fiel, você só usa como disparador. Imagem e texto tão muito colados pra mim”. Como podemos ver na imagem abaixo de seu caderno, onde elu desenha um trecho do livro “Jóquei”, de Matilde Campilho. [Trecho do poema "a nunca do fogo/ a língua do fogo/ as costas do fogo"]

Seu pensamento como artista trespassa barreiras, como se sempre estivesse pensando como isso pode ser representado de maneiras menos óbvias. Ou a partir dessa desobservação das coisas, como elas (não) são? A poesia permite outra forma de vê-las e perceber que as formas como vimos também são inventadas, não estiveram sempre aí.
A poesia permite isso, e o pensamento delu parece muito poético e afetivo.
Estes fatores poéticos fazem com que elu entre mais em contato consigo mesme, onde é possível ver também o que faz parte de si e o que importa para sua arte: as texturas, o cheiro, os traços, os detalhes: “Acho que também permitir que meu corpo só vá lidando com o desenho de uma forma mais sincera e prazerosa, faz com que eu possa me desviar um pouco e depois perceber “Olha que interessante essa forma que tá aqui” ou “Que interessante não preencher a sombra inteira” acaba que me permite que eu descubra outras formas de entrar em contato com a minha sensibilidade, e o tato que eu tenho, a textura que eu vejo e até o gosto que às vezes que eu sinto ao desenhar coisas”.

Escutar o que o seu corpo quer desenhar daquilo.
Céu Isatto, 2025
Céu Isatto: corporeidade, poesia, sensibilidade e observar a si e a vida
O trabalho de Céu Isatto habita o entrelugar do analógico e do digital, em que o caderno de artista funciona como extensão do corpo. Entre zines, notas fiscais, escaneamentos e traços borrados, seu processo é guiado pela poesia do gesto, pela textura do papel e pelo desvio da observação direta da realidade. Seu universo é feito de vestígios e do prazer de escutar o próprio corpo desenhar.
E não perca! Céu está com inscrições abertas até o dia 24/08/25 para o curso “Ver com as mãos” que dará on-line sobre desenho a partir de poemas da poesia brasileira; pensando nos estímulos sensoriais que podem ser extraídos dos sons, manchas de texto, ritmos, rimas e imagens mentais criadas. Acesse aqui: https://www.instagram.com/p/DMtJ7M6SPqC/?img_index=1








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