#6 Caderno de Artista: Letícia Façanha
- natalyolivier

- 28 de set. de 2025
- 9 min de leitura

Letícia Façanha tem como principal prática a pintura sobre tela, papéis e vidro, investigando a visão e a memória. A artista propõe um olhar ao que tenta manter-se “à vista”, habitando entre camadas, no limiar, na penumbra; entre o que é visível e não visível, abrindo assim fissuras na percepção. Atualmente sua pesquisa ronda a seguinte questão: O que nos escapa na nossa forma de fazer o mundo?
A artista se relaciona com o que a cerca, criando imagens que propõem uma imersão no devaneio, explorando os elementos familiares que constroem o imaginário. Dessa forma, a cada imagem, ela busca a sugestão. Nesse jogo que se relaciona com o familiar e o estranho, com o encantamento e o assombro, a consciência e a inconsciência.
Letícia é artista visual, nascida em Fortaleza, Ceará. Graduada em Arquitetura pela Universidade de Fortaleza, no Brasil, também estudou artes e arquitetura na ENSA-Paris-La-Villette, na França. Em 2024, integrou-se, com três artistas, ao Ateliê Cinco Sete, espaço colaborativo independente de fomento à educação e à cultura.
Realizou exposições coletivas destacando o 76° Salão de Abril com a mostra Despertar à Terra, Fortaleza (2025); Delírio Ardente, na Cave Galeria, Fortaleza (2024); e expôs na Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco com a mostra Cavar Fendas de Possível, Recife (2024).
Cadernos de Letícia Façanha: paisagens que vêm de dentro

O encontro com a artista acontece em seu ateliê, no novo endereço do Ateliê 57, no Meireles (Fortaleza). O espaço, ainda em adaptação, respira arte: esboços colados nas paredes, estudos espalhados e o cheiro de solvente pairando no ar.
Quando você começou a cultivar os Cadernos de Artista?
Letícia relembra o início de seus cadernos: “No começo dos cadernos, eu não sabia nem desse termo ‘caderno de artista’, sabe? Eu comecei a produzir muito quando eu tava no meio da faculdade de arquitetura ou antes do intercâmbio, em 2017, mas desde criança tive o hábito do diário, passei muito tempo sem fazer e um pouco antes do intercâmbio voltei ao diário, era muita escrita e comecei a fazer alguns desenhos. Desde 2017 eu vivia colecionando cadernos com título, comecei a fazer títulos porque eram muito recortes de fases, de pensamentos e tinha um pouco das minhas leituras. [...] E comecei a colocar desenhos nesse meio, dentro dos livros também, depois que fui produzindo e o tempo passando, comecei a entender que o caderno também poderia ter esse lugar para resolver algumas coisas que eu estava vendo ou na paisagem ou nas pessoas e colocar como registro do tempo que eu tava, registrava o cotidiano. Meus cadernos não têm tantos desenhos, mas têm muita escrita e muitos relatos do que vejo. Acho que vai mais nesse lugar da descrição, de alguns incômodos. Mas aí com o tempo eu fui entrando com o desenho em pequenos quadrinhos, amo esse formato pequenininho. Eu fui fazendo algumas viagens, e como ele nasceu mais forte desse meu intercâmbio, eu fui fazendo desenhos de caminhos, das coisas, das pessoas que estavam ali comigo”.

As pinturas de Façanha, que são de muitas paisagens, percorrem paisagens suspensas no devaneio, como se cada uma nos transportasse a algo que nós sabemos, uma nostalgia, um envelhecimento da própria memória ou algo futuro esquecido. Nos parece próximo. As paisagens chegaram em sua pesquisa com o tempo, essa relação vem de seu olhar de arquiteta e urbanista, atento às transformações do território: “Hoje fortaleceu bastante porque eu parti muito do corpo, da intimidade na pesquisa, e isso virou pra mim, as coisas foram chegando nesses desenhos de paisagem”.

Por ser arquiteta, é perceptível como seu olhar atento a infraestruturas, terras, construções agregam muito ao seu trabalho e como a paisagem é mais do que registrá-la, é um meio afetivo e de memória com sua infância ou outros momentos da vida: “Eu sou arquiteta, venho do urbanismo também, venho um pouco dessa coisa de olhar a paisagem, de perceber às vezes como ela muda muito rápido, e o tempo que ela chegou pra mim, foram muitos anos de construção, porque às vezes são paisagens muito afetivas, paisagens de vida. Por exemplo, ali pelo Cocó, pela Sabiaguaba, que morei quando criança, aquilo parecia ser um tempo que não ia acabar, passei 15 anos fora desse bairro e aí eu voltei a morar nele, e foi uma coisa meio estranha, as referências tinham mudado. O que era a edificação que eu via, na paisagem que se estendia até um prédio específico, hoje se estende em 10 prédios que entraram. Eu vi surgir em 8 meses 2 torres na minha frente e aí eu vejo como essa paisagem urbana vai mudando num tempo muito mais rápido do que a paisagem natural que tem seu tempo de crescer e se desenvolver. Às vezes eu vejo umas fotos do Cocó antigas e fico “Era assim?”’, eu via uns campos de futebol, uns alagados na época de chuva, ficava vendo as garças, e hoje ele tá imenso, e a nossa memória não consegue ver uma coisa tão abrupta, quase que um envelhecimento, tempo de vida mesmo. Às vezes a gente não percebe que uma pessoa envelheceu até ver as fotos de antes. Tem um apego meu, não sei nem se é saudável, mas é uma vontade de que as coisas permaneçam ou, pelo menos, se desenvolvam num tempo que eu consiga absorver. E, às vezes, a agressão (à paisagem) que acontece e eu vejo, isso me dá um susto, por exemplo, estava passando ali pelo anel viário e eu vi um novo viaduto e tinha uma parte da infraestrutura urbana que já existia, que era uns postes de luz, mas tiveram que fazer meio que uma terraplanagem no território, só que onde tinha os postes de luz deixaram um mondrongo de terra de uns 2 metros e ficou um monte de quadradinhos de terra, e acho aquilo muito como uma cidade cheia de coisas estranhas, que não fazem muito sentido. E começam a causar recortes do lugar, se você apagar isso (as infraestruturas) tem uma topografia completamente esquisita, artificial e estranha mesmo”.

Esse processo de observar o que se passa ao seu redor se dá muito por viagens de carro que faz pela própria cidade ou regiões próximas onde ela tenta registrar o que lhe chama os olhos, mas nem sempre consegue no momento, mas as paisagens ficam em sua memória onde ela vai ruminando ideias, como complementa: “Tenho família que mora perto do anel viário, no Eusébio , tenho outra que mora perto do Cristo Redentor, no Pirambu, então o caderno passa muito dessas viagens, desses registros rápidos de alguma coisa que eu tava passando, por isso que os desenhos são muito pequenos. Às vezes eu não consigo salvar tão rápido, não tá tão registrado na minha cabeça, porque eu vou passando e aquilo vai ficando na cabeça. Aí depois eu pego o caderno e faço 10 desenhos daquilo. E uma coisa vai puxando a outra. Às vezes tive uma ideia há tanto tempo e começo a colocar no desenho e consigo brincar com essa paisagem”.

Ela adiciona: “Eu gosto da escala pequena pra não prender muito, pra não querer resolver demais, acho importante. Aí o caderno me ajuda com essas escalas menores, aí eu começo a interferir com a pintura, e volto pro caderno pra tentar resolver outra coisa. Eu fico indo e vindo” , como podemos verificar na imagem acima, onde há um pequeno estudo em papel abaixo da tela em obra.

Reparo em algumas páginas em que a artista usa pastel oleoso, ela explica: “Isso é um estudo de cor. Como a gente tá em coletivo aqui, a gente observa como o artista resolve algumas coisas e vai pegando. O Saulo tem muito essa habilidade de trabalhar com o pastel oleoso e às vezes tô em algum canto e não tô com meu estojo com lápis ou as tintas pra trabalhar ali na hora, e aí eu vi ele fazendo coisas com pastel e percebi que pode ser uma boa ideia pra fazer estudo de cor e comecei a sair com um pote de requeijão e o pastel oleoso dentro”.
O Caderno de Artista estendido

Para Letícia, é muito importante que os desenhos saiam dos cadernos e formem um campo visual no espaço físico do ateliê (imagem acima), como ressalta: “Eu percebi quando tô aqui no ateliê que os estudos têm que sair do caderno e ir pra parede, criando esse campo visual. Acho que esse caderno/pasta tem que tá impregnado em todo canto, nas paredes”.
“Os cadernos são como uma extensão de mim, uma outra parte, em que tento me entender e não encontro muitas palavras.” - Letícia Façanha

Seus estudos e esboços ajudam a fomentar obras, mas nem sempre são fielmente seguidos no processo de pintura em outro suporte: “Nem sempre viram obra, mas às vezes o estudo vai pra outro canto. Meus estudos dificilmente vão pra onde a pintura tá indo. Exemplo: a obra ‘Espelho d’água’ é uma área alagada e fui refletindo sobre esse céu refletido, e foi no anel viário, tem uma parte que parece que a vegetação tá flutuante, que alaga tudo e as árvores ficam quase que nesse espelho”. Como podemos perceber as diferenças na imagem acima em estudo da artista desde o caderno até a obra final.

Uma coisa muito interessante é como ela usa pastas com folhas transparentes para guardar desenhos, formando um caderno de artista próprio, repleto de memórias, retalhos e encaixes de tempo, quase como um álbum de fotos, mas de desenhos: “Uma extensão dos meus cadernos são esses pequenos estudos, que apesar de não estarem nas páginas do caderno, estão sempre em folhas do caderno, mas nem sempre são folhas apropriadas pra pintar com óleo, são sempre essas folhas muito finas, que são folhas que eu arranco do caderno”.
E assim tudo em seus cadernos vão se complementando com suas pesquisas: “Meu caderno é uma grande conversa. É um lugar onde eu vou escrevendo o que tô pensando, que tô com raiva… sabe? E eu gosto muito de ler, porque eu vou registrando algumas coisas que vão me afetando fora da imagem. Por que aquilo me afeta? E vou anotando. Às vezes faço umas listagens, tipo: tipos de agressão na paisagem. Exemplo: ‘Me veio um verdadeiro assombro. Na minha última viagem, subindo a serra vi eucaliptos ou episódios de coisas terríveis e cortes grosseiros…’ É bem um relato mesmo que eu gosto de fazer e aquilo vai se montando uma cadência de imagens, de paisagens que depois vou elaborando em muitos desenhos”.
Sobre um caderno apenas de escrita: “Esse é só de escrita, bem diário artístico, é mais recente, achei que seria uma boa separar os desenhos em um e o diário em outro, mas já tô completamente perdida, tanto que isso já caiu por terra, eu escrevi pouco nele, porque senão eu fico muito presa à palavra e eu preciso ter o desenho, a pintura junto. Acho importante ter um pouco do contexto, porque vira uma cadência de pensamentos e isso me ajuda muito.”

Você vê o Caderno de Artista como uma obra?
“Com certeza. Se eu pudesse, eu queria muito apresentar processos, eu acho que essa parte é muito importante. Inclusive uma coisa que me inspirou muito pro caderno, foi uma exposição que eu fui do Leonilson, tinha as agendas dele, tinha a palavra, e essa exposição foi muito impactante ver ele escrever na agenda como diário mesmo, era uma página de registro dele, como ele tava, a relação dele naquele momento e o que ele tava querendo fazer e aquilo dava um ânimo ou então tinha a questão da doença que ele tava interagindo, ele tinha muito essa relação com a palavra que ninguém vê e depois tá todo mundo vendo”.

“Percebo um pouco essa minha relação de estar conversando com o meu caderno, é quase como se eu tivesse me confessando. Pra mim, o caderno tem essa coisa mística também de você estar conversando com aquilo, parece um outro lado seu.” - Letícia Façanha

Para a artista, o caderno é muito importante por ter seu tempo suspenso, as ideias nele vem e vão, possibilitando revisitar e criar novos olhares: “Porque querendo ou não na produção a galera faz uma ordem cronológica, as pessoas colocam a data, e às vezes essa cadência de pensamentos ela tá atuando em outro tempo no caderno, você repete coisas que você já fez e que aquilo já foi pintura, depois aquela imagem volta e você não entende bem o tempo que aquilo tá atuando na sua cabeça. E acho que o caderno por não ter isso, necessariamente essa cronologia, apesar de trabalhar um pouco como diário, mas aquilo tá o tempo todo indo e vindo. Então eu gosto dessa possibilidade do caderno estar nesse campo onde as coisas ficam meio suspensas. Não estão necessariamente catalogadas, não há aquela rigidez”.
“E isso do caderno, é uma parte muito preciosa, porque nem tudo vira obra apresentada, obra dita ‘pronta’, mas tem uma importância, acho que é ali que tá a COISA, da rede, das ligações, dos pensamentos, daquela coisa que não é linear e não tem tempo.” - Letícia Façanha, 2025.

Letícia Façanha e o espelho da memória
Os cadernos de Letícia Façanha não são apenas diários visuais, mas territórios de memória, devaneio e experimentação. Neles, escrita e desenho se entrelaçam, formando um espaço de pensamento vivo, onde paisagem e intimidade se encontram.
Seus registros revelam tanto o olhar atento às transformações do espaço urbano quanto o apego às memórias afetivas, criando uma poética que transita entre o visível e o indizível. Mais do que estudos preparatórios, seus cadernos são extensões de si mesma: obras que condensam o tempo suspenso da criação.








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